nofact ([info]nofact) wrote,
@ 2009-01-22 21:58:00
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BRIGA NO BECO
a voz surgiu durante o sono. meio adormecido e confortado pelo calor, apenas ouvi a voz. as palavras eram pronunciadas com sotaque brasileiro e de uma forma pouco natural, teatralizada. pensei na possibilidade de alguém estar em perigo físico e levantei-me. a voz tão melodiosamente grave era afinal uma rapariga, louca contra um homem. o sentido perdia-se na estranha entoação: "VOCÊ É O DEMóNIO".. "AQUELA VAGABUNDA"..; e a voz ecoava por toda a rua. era uma discussão passional. foi um momento de tal forma marcante, pela voz e pelos gestos de agressão, que recordando-o agora me apeteceu escrever sobre ele. tenho um livro com um poema da Adélia Prado que acerta muito bem com a irrealidade desta cena.

...

Encontrei meu marido às três horas da tarde
com uma loura oxidada.
Tomavam guaraná e riam, os desavergonhados.
Ataquei-os por trás com mão e palavras
que nunca suspeitei conhecesse.
Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,
gritei meu urro, a torrente de impropérios.
Ajuntou gente, escureceu o sol,
a poeira adensou como cortina.
Ele me pegava nos braços, nas pernas, na cintura,
sem me reter, peixe-piranha, bicho pior, fêmea-ofendida,
uivava.
Gritei, gritei, gritei, até a cratera exaurir-se.
Quando não pude mais fiquei rígida,
as mãos na garganta dele, nós dois petrificados,
eu sem tocar o chão. Quando abri os olhos,
as mulheres abriam alas, me tocando, me pedindo graças.
Desde então faço milagres.



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[info]lifestills
2009-01-23 01:25 am UTC (link)
lindo

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[info]procuro
2009-01-23 11:19 am UTC (link)
poema bonitão

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